Nas últimas semanas, tive várias conversas com empreendedores que estão vivendo um dilema curioso. Depois de anos batalhando para colocar a loja virtual em pé, alcançaram a marca de R$50 mil mensais de faturamento. É um número que impressiona, que dá orgulho de contar para amigos e familiares. Mas junto com a conquista, surge uma sensação estranha: a de que, apesar das vendas, o crescimento travou. Esse ponto é mais comum do que parece — e é exatamente sobre esse próximo salto do e-commerce que quero falar com você hoje.
O platô dos R$50 mil
A primeira coisa que precisamos entender é que R$50 mil não é um destino, mas um divisor de águas. Chegar nesse patamar mostra que o produto encontrou mercado e que a loja tem potencial. Porém, também expõe os limites de uma operação construída de forma artesanal.
Até aqui, muitas vezes, o negócio depende do esforço pessoal do dono. É o empreendedor que responde clientes, gerencia anúncios, acompanha pedidos e resolve problemas de última hora. Esse formato funciona até certo ponto, mas inevitavelmente chega ao limite.
É nesse momento que os custos fixos aumentam: contratar alguém para ajudar, investir em marketing mais estruturado, manter estoque maior, organizar logística. Se antes cada venda trazia entusiasmo, agora cada venda carrega também uma responsabilidade. E cada erro começa a custar caro.
E como já lembrava Darwin, a evolução é sempre sobre adaptação:
“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” – frase atribuída a Darwin
Por isso, o platô dos R$50 mil é traiçoeiro: quem não se prepara para superá-lo corre o risco de ficar preso por anos no mesmo patamar.
Os gargalos que seguram o crescimento
Chegar até aqui exige esforço. Mas escalar exige outro tipo de competência. Os gargalos ficam mais visíveis nesse estágio:
- Logística que não acompanha. O frete, que antes era apenas um detalhe, passa a definir competitividade. Entregas lentas e caras minam reputação e derrubam conversão.
- Marketing que não escala. Muitos negócios dependem exclusivamente de tráfego pago. No começo, funciona. Mas conforme a operação cresce, os custos aumentam e a margem encolhe. E o tráfego orgânico, que antes parecia suficiente, já não acompanha.
- Processos frágeis. A gestão feita “no braço” começa a ruir. Planilhas desatualizadas, falhas em lançamentos, pedidos que somem no meio do caminho. O que era aceitável quando a loja vendia pouco, agora compromete todo o resultado.
- Gestão financeira nebulosa. Vendas crescem, mas o lucro não aparece. Sem controle rigoroso de fluxo de caixa e margens, o empreendedor vive a ilusão de estar prosperando enquanto o caixa esvazia.
E como já dizia o Maluco Beleza:
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” – Raul Seixas
No e-commerce, assim como na vida, resistir às mudanças é o caminho mais rápido para a estagnação.
O que acontece com quem não dá o salto
Esse é um ponto doloroso, mas necessário. Muitos empreendedores param nesse platô. Continuam vendendo, mas nunca escalam. E com o tempo, percebem que a concorrência avança, os custos aumentam e o entusiasmo inicial desaparece.
O risco é entrar em um ciclo de desgaste: trabalhar cada vez mais para manter o mesmo resultado. É o famoso “correr na esteira”: muito esforço, pouco avanço. Alguns acabam desistindo, outros ficam presos em uma rotina de sobrevivência.
Aqui vale lembrar de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto, autor de Em busca de sentido. Sua obra é um lembrete poderoso sobre resiliência em momentos de crise.
Frankl ensinava que, sem um propósito, qualquer dificuldade parece insuportável. Mas quando temos clareza de por que fazemos o que fazemos, conseguimos atravessar até os piores cenários.
“Aqueles que têm um ‘porquê’ pelo qual viver podem suportar quase qualquer ‘como’.” – Viktor Frankl
Sem visão de futuro, sem um propósito claro, o lojista perde o fôlego. O próximo salto não é apenas sobre faturamento — é sobre dar significado ao negócio.
Como dar o próximo salto
A boa notícia é que existe um caminho. O próximo salto do e-commerce exige uma mudança de mentalidade e de práticas. Três pontos costumam fazer toda a diferença:
- Branding e diferenciação. Crescer não é apenas vender mais; é ocupar um espaço na mente do cliente. Quem compete só em preço fica preso a margens apertadas. Já quem investe em marca cria valor percebido, fideliza clientes e ganha resiliência em tempos de crise.
- Automação e Inteligência Artificial. O estágio do improviso acabou. É hora de automatizar processos, reduzir erros e liberar tempo do time. Da previsão de demanda ao atendimento, cada tarefa manual que puder ser substituída por tecnologia é um avanço em escala.
- Estrutura e cultura de crescimento. Chegou a hora de profissionalizar: montar equipe, definir papéis claros, acompanhar indicadores e criar uma cultura de melhoria contínua. Escalar exige disciplina, governança e visão de longo prazo.
Vale lembrar aqui de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company e um dos pioneiros da produção em massa. Ele entendia como poucos a importância de repensar processos para alcançar escala.
Sua visão simples, mas poderosa, continua atual:
“Se você faz o que sempre fez, vai ter o que sempre teve.” – Henry Ford
O próximo salto exige novas práticas, novas ferramentas e, acima de tudo, uma nova mentalidade.
Se você já chegou aos R$50 mil mensais, parabéns. Mas lembre-se: isso é só o começo. O verdadeiro jogo começa agora. O próximo salto do e-commerce exige coragem para mudar, disciplina para organizar e visão para construir algo maior do que você mesmo.
Crescimento não acontece por acaso — ele é resultado de escolhas estratégicas. E quanto mais cedo você se preparar, mais rápido deixará o platô para trás.
E aqui deixo minha recomendação pessoal para todos os lojistas que chegaram até esse ponto:
“O que trouxe sua loja até aqui não será suficiente para levá-la além.”
AVISO FINAL
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Grande abraço e força para saltar!
Flávio Augusto Bertholdo